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Juliana Brito

“Seja bem vinda menina!” Essa frase nunca mais vai sair da minha cabeça. O dia estava frio, mas ensolarado, típico inverno do Sul do país. Passei o dia todo pensando em como seria esse encontro, pois no meu pensamento a imagem das religiões afro-brasileiras era negativa. Eu pensava que as paredes dos templos e as vestes de quem frequentava eram vermelhas e pretas, e que dentro desse lugar haveria muitas imagens e esculturas demoníacas. Até chegar ao endereço me pegava pensando no que realmente era Umbanda. Ouvi várias pessoas falando sobre a religião, ouvi coisas negativas e criei essa imagem ruim na minha cabeça.

 

Chegando no lugar marcado, meu coração disparou, minhas mãos estavam trêmulas, meu rosto pálido. Lourdes de Souza, esposa do médium Pai Antônio, me recebeu no portão do templo. Depois dos cumprimentos ela me diz que, para poder entrar, teria que tirar os calçados. Tirei meus sapatos e entrei.

 

Ao ingressar no local toda aquela imagem preconceituosa foi quebrada, percebi que estava totalmente errada. Meus olhos brilhavam, eu fiquei por alguns segundos olhando tudo que havia ao meu redor. O templo era todo branco e muito limpo, com grandes esculturas de Orixás. A imagem de Iemanjá me chamou muito atenção pois era toda bordada em pedras brilhosas. Naquele momento eu só conseguia admirar tudo. Foi quando Pai Antônio, sentado em uma poltrona clara, me fala: “Seja bem-vinda menina!” Foi assim que fui recebida por Antônio Rogério de Souza, mais conhecido como Pai Antônio, médium no Templo De Umbanda Pai Ogum Beira Mar E Mãe Oxum, em Santa Cruz do Sul (RS).

 

Achei que seria uma entrevista iguais outras, que eu me apresentaria e começaria a gravar. Então tive mais uma surpresa: Pai Antônio me convida para sentar. Sentei e ele me pergunta: “Você sabe o que é a Religião Umbanda? Resmunguei, morrendo de vergonha,que sabia bem pouco. Mal sabia ele que eu era leiga desse assunto, que tinha, até então, todo aquele preconceito ridículo sobre sua religião.

 

Com uma voz que transmitia paz, ele me diz: “Antes de começarmos a gravar, vou te explicar um pouco da minha religião” Olhei fixamente para ele, então ele começa o relato: “Minha filha, a religião Umbanda é uma religião linda, igual a todas as outras. Umbanda é uma religião afro-brasileira, fundada por um brasileiro, Zélio Fernandino de Moraes, em 15 de novembro de 1908. É uma religião que pratica o bem, diferente disso, não pode ser considerada Umbanda. Essa religião é única e exclusivamente criada para fazer o bem a todas as pessoas praticantes. É uma religião como as outras, que têm seu sacramento, fundamento, sacramento de batismo, casamento, funeral. É uma religião para quem quer se viver, para te transformar. É uma forma ritualizada onde grupos de pessoas de uma comunidade se unem para um ritual em culto a Deus. Umbanda é uma religião de paz, amor, muita caridade e de muito auxílio ao próximo”, termina.

 

Foi uma conversa de meia hora onde consegui entender o que era realmente Umbanda. Depois de toda explicação, começamos a gravar. No vídeo, Pai Antônio explica os banhos, as ervas e as oferendas que são usadas na religião. Fala também por quais motivos as pessoas procuram a Umbanda. Confira:

Muitas perguntas passam pela cabeça quando ouvimos falar sobre as religiões afro-brasileiras: O que é? Quais as diferenças entre elas?

 

A religião afro-brasileira há muito tempo vem ganhando espaço no Brasil. Segundo o último Senso do IBGE de 2010, 0,31% dos brasileiros são frequentadores das religiões afro-brasileiras. A Umbanda angaria 0,21% desses frequentadores, o Candomblé, 0,9%, e as outras religiões afro ficam com 0,1%.

 

Segundos estudos, as religiões africanas chegaram no Brasil em meados dos séculos XVI e XIX com o tráfico de escravos negros da África Ocidental para o Brasil. Essas religiões foram proibidas de serem seguidas pelos escravos por muito tempo, pois a religião frequentada pelos portugueses era o Catolicismo.

 

O Candomblé e a Umbanda são as religiões afro-brasileiras mais seguidas no Brasil, mas muita gente acredita que as duas religiões são uma só, e que são usadas para fazer o mal através de magia negra. Mas, segundo Paulo Ricardo dos Santos, frequentador do templo Oxalá e Iemanjá Fraternidade de Ogum Megê e Oxóssi, da cidade de Ijuí (RS), a religião Umbanda e o Candomblé têm muitas diferenças, dentre elas as influências rituais. O Candomblé tem influências indígenas, católicas e espíritas.

 

Já a Umbanda tem Catolicismo, Kardecismo, Budismo e do Islamismo. A forma que cada uma trata seus orixás também chama atenção. No Candomblé os orixás são ancestrais uns dos outros, têm um grau de parentesco; já na Umbanda os Orixás são consideráveis um mistério divino. Além disso, a Umbanda acredita na existência das entidades que voltam à Terra para tentar ajudar os humanos, já no Candomblé um espírito humano pode voltar à terra com dois intuídos: para ajudar ou para atrapalhar. Os abates animais só são aceitos na religião do Candomblé, pois na Umbanda,prega o amor ao próximo, e os animais são bastante próximos a eles. Os guias que habitam nos animais são espíritos nascentes, consequentemente, a Umbanda não permite esse sacrifício.

Agora que você já sabe algumas diferenças entre a religião Umbanda e Candomblé, confira também as diferenças entre os rituais de cada uma:

 

O que são rituais religiosos? Essa dúvida ainda cerca muitas pessoas, principalmente quando se fala de rituais das religiões afro-brasileiras. Rituais são gestos, palavras, repletos de valores e virtudes simbólicos de cada religião.  Para tirar essa duvida, segue abaixo as diferenças entre os rituais das religiões de Umbanda e Candomblé:

Condição básica para ingressar no culto. A segregação (é o processo de isolamento de um indivíduo,perdendo todo o contato físico com outras pessoas ou grupos) do fiel é por um longo período: a raspagem do cabelo total; o sacrifico animal e oferendas aos rituais.

Existem condições, mas não básicas para poder pertencer ao culto, como: segregação do fiel por um período curto, raspagem do cabelo (não obrigatório), sacrifício do animal (não obrigatório) e oferendas rituais.

Jogo de búzios, realizado apenas pelo pai de santo.

Jogo de búzios, realizado apenas pelo pai de santo.

Predomínio de diálogos entre os consulentes e as divindades que dão os passes.

Estabelece um tempo de iniciação e indicação dos adeptos para ocupar os cargos religiosos.

Estabelece a capacidade de liderança religiosa de um médium e seus guias.

Predominam as cantigas contendo expressões de origem africana. Acompanhamento executado por três atabaques percutidos somente pelos alabês (que iniciam com pessoas do sexo masculino que não entram em transe).

Predominam cantos em português, acompanhados por palmas ou pelas curimbadas. Podem ser entoados por ambos os sexos.

Formação obrigatória da “roda de santo”. Predomínio de expressões coreografadas preestabelecidas para identificar cada divindade ou momento ritual.

Não é obrigatório a formação da “roda do santo “. Disposição dos adeptos em fileiras paralelas. Predomina uma liberdade de expressão e linguagem gestual nas danças onde são identificadas as divindades.

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