
Karolaine Pereira
Nathiele Droese

Terra Pura de Guru Rinpoche, local onde se encontra as cinzas do fundador do Khadro Ling | Foto: Nathiele Droese
O que vem à mente quando pensamos sobre o budismo? Monges, orações, mantras, meditações? Sim, nosso pensamento está certo, mas o budismo é muito mais que apenas essas características. Além de ser uma religião, considera-se uma filosofia, com uma percepção de mundo, que busca compreender a existência do sofrimento, as causas e efeitos do carma e a simplicidade da felicidade. Para o melhor entendimento da doutrina budista fomos até o Templo Chagdud Gonpa KHADRO LING, localizado em Três Coroas, Rio Grande do Sul. O Templo fica afastado da cidade, encontra-se rodeado de montanhas, florestas e campos de agricultores. Além de abrigar retiros e cerimônias budistas, o templo principal e outros monumentos do lugar estão abertos à visitação, apenas não é permitido a entrada nas casas de moradores.
Tirar os sapatos é o primeiro passo para entrar nos locais sagrados do Centro Budista. E foi assim, que começamos a entrevista com a instrutora, Sibele Volino Corrêa, tirando os sapatos. O espaço onde nos encontramos é próprio para meditação. Com paredes vermelhas, cortinas pretas, chão de carpete, e um pequeno altar, onde há imagens sagradas da religião, a sala demonstra um pouco a arquitetura do templo.
Sentada e sorridente, a cada pergunta, Sibele demonstrou seu otimismo e paixão com a religião. Mesmo vindo de uma família católica, a tradutora estava em busca de um novo caminho. Foi quando conheceu o fundador do Templo de Três Coroas, Chagdud Tulku Rinpoche, em 1995. “Depois que conheci ele, comecei a ouvir ensinamentos budistas e aquilo começou a fazer sentido para mim, as respostas que eu estava procurando eu encontrei”, conta. Ela se mudou para o Templo em 1998 e reside até hoje no local.
Além de Sibele, cerca de 50 pessoas moram no Centro. Ela explica como é a rotina diária no Khadro Ling. “Nosso dia abre e fecha com uma sessão de meditação, de manhã temos às 6h30, após tomamos café coletivo no refeitório”. Depois cada morador vai cumprir a sua tarefa no Centro Budista. “Aqui tem várias áreas diferentes, tem as pessoas da manutenção, tem o espaço de publicação de textos, a loja, a organização de eventos, entre outros. O almoço também é coletivo”. Assim como começa, o dia se encerra com uma sessão de meditação às 19 horas. Sibele é tradutora, ela traduz textos budistas do inglês e do tibetano para o português.
Questionamos se Sibele havia encontrado a felicidade no Centro e em poucas palavras ela expressou seus sentimentos sobre a mudança para o Templo. “Eu vou ser bem sincera contigo, eu sou muito feliz aqui”. Ainda segundo ela, a inserção na vida no Khadro Ling não é uma bolha onde não se sente mais nada. Existem momentos de felicidade e momentos de tristeza. “O budismo me deu as ferramentas para tornar todas as experiências significativas, então, se eu estou feliz, isso é significativo, e se eu não estou, também é, e depois do budismo, a minha vida faz mais sentido”, finaliza.
Sibele mudou a sua vida após conhecer o budismo e vir morar no Centro de Três Coroas. E assim como ela, algumas pessoas que visitam o Khadro Ling, acabam descobrindo afeições e sentimentos antes desconhecidos pela religião. Um exemplo é o casal, Amélia Nonticuri e Renato Azevedo. Eles resolveram visitar o Templo em comemoração ao aniversário, ambos celebram no mesmo dia, e saíram de lá sem palavras para mensurar o significado da visita, como conta a assistente social. “Estou levando muito mais do que eu poderia imaginar que encontraria aqui, estou indo embora com a vivacidade renovada e cheia de paz”, finaliza.
O marido, Renato Azevedo, que inicialmente foi ao local só para acompanhar a esposa, conta que após visitar o Templo, não consegue definir os sentimentos que o local transmite. Azevedo participou de uma sessão de meditação e de uma palestra sobre budismo, e diz que se identificou muito com a experiência. “Sempre acreditei que tenho uma missão, e ao escutar as palavras do mediador, acho que encontrei o meu possível caminho", finaliza. Ambos contaram que a visita ao Khadro Ling é uma fonte de paz inexplicável, e que esse, é um ótimo local para encontrar a si mesmo.

Renato e Amélia| Foto: Nathiele Droese
Fotos da galeria: Nathiele Droese
Começamos questionando Sibele se o Budismo poderia ser considerado uma filosofia ou uma religião. De acordo com ela, o budismo é sim uma religião, que possui uma filosofia. “O budismo tem uma filosofia, uma visão de mundo, assim como toda religião, e ao mesmo tempo, o budismo é uma ciência da mente. O que Buda ensinou tem como objetivo que conheçamos a nossa mente, por isso, podemos dizer que ele engloba ambos os aspectos”, explica.
A instrutora lembra que Buda, o criador da religião, é mais do que um ser. “Existem vários Budas, e nessa era, muito longa, vivida pelo budismo agora, dizem que haverá mil budas, e o Buda Shakyamuni (Siddhartha Gotama) é apenas o quarto desses. Sibele também explica que o Sutra e o Tantra são métodos de ensinamentos que Buda criou, e eles eram aplicados de acordo com a capacidade do aluno. “Ele ensinava aquilo que a pessoa tinha condições de entender e aplicar. Ele era uma pessoa muito prática”.
A instrutora também ressalta que os ensinamentos de Buda são universais e atemporais. “O que houve desde da época de Buda foi um avanço tecnológico e da ciência, porém em termos de conhecimento interior e de como a mente funciona não houve muitos avanços”. Ela lembra que mesmo com a facilidade que existe hoje em dia, as pessoas continuam procurando sentidos para as suas vidas. “Elas ainda procuram resolver questões básicas que o budismo consegue responder, mesmo 2500 anos depois de Buda”, finaliza.
SINTA O TEMPLO
Acompanhe-nos na visita
A viajem até o Khadro Ling é longa. Saindo de Santa Cruz do Sul, o visitante roda pelo menos 200 quilômetros até chegar em Três Coroas, munícipio onde fica o centro budista. Até aí é normal, rodovias, serra, céu, tudo igual. Depois de chegar no centro da cidade, o viajante irá percorrer pelo menos mais sete quilômetros para subir a montanha onde fica o templo. Mas esse não é um caminho qualquer.
A estrada que liga a cidade ao Khadro Ling é diferente. Conforme a montanha vai subindo, a nevoa aparece no horizonte, criando a sensação de que estamos em outro país, no Nepal, por exemplo. O frio complementa a sensação de mudança. As casas de madeira na beira da estrada se parecem com uma pequena vila “abandonada”, mas ao mesmo tempo demonstram que não são, aliás, há muita vida na montanha, a vegetação verde e as plantações na beira do caminho provam isso.
Na chegada não é diferente, é preciso subir mais uma montanha para ingressar nas instalações do Centro Budista. Como estamos no alto, o frio se intensifica, principalmente por causa do vento gelado. O templo principal se destaca no meio das edificações, isso porque é de um vermelho intenso. Parece que as cores fortes são uma forma de dar vida ao cinza do topo da montanha.
A rotina do Centro inicia cedo. O sol mal aqueceu o frio da serra e os moradores já estão indo para a primeira meditação do dia. O encontro é no templo principal, que se destaca em meio aos outros. O primeiro passo para entrar, é o mesmo dos outros locais, tirar os sapatos. Cada morador senta no seu local definido para meditação. Ah, não há bancos como na Igreja. As pessoas sentam em colchonetes sobre o chão, diante de uma pequena bancada vermelha onde ficam os livros com os mantras.
A arquitetura interior do templo, as imagens, os desenhos nas paredes, ajudam a completar a sensação
de paz e alívio que o local transmite. Os mantras entoados pelo instrutor que conduz a meditação adentram a alma. O sentimento para o visitante é único. Tanto que as pessoas saem de lá renovadas e algumas até se encontram na religião.
Percorrer o templo é descobrir cada novo detalhe a cada nova piscada. O altar principal contém as oferendas de água, em centenas de tigelas que são oferecidas todos os dias pelos moradores como treinamento de generosidade, paciência e sabedoria. A quantidade de tigelas impressiona. Ainda no templo você pode oferecer uma ou mais lamparinas para seus familiares, amigos e pessoas queridas. Você coloca seu nome, o valor que está disposto a oferecer, o valor mínimo é de R$ 2,50, e o nome das pessoas. Abaixo você coloca o que deseja para elas. Claro que fizemos nossas oferendas.
Andar por todo o centro Chagdud Gonpa Khadro Ling desperta uma paz gratificante. Conversar com os instrutores é uma forma de compreender a natureza do lugar que completa o estilo de vida dos moradores. Tudo se torna relativamente calmo. Os campos são grandes para se andar de um lugar para o outro, a atmosfera é de tranquilidade. E é claro, pensamentos sobre a vida virão à tona. Um dos motivos centrais, por assim dizer, é por estarmos sempre na correria, diante de faculdade, emprego, família, afazeres extras, acabamos não percebendo pequenas ações, situações e assim todos estes compromissos entram em um único pensamento: o nosso tempo é precioso. Uma coisa que compreendemos é que no Centro podemos desfrutar o tempo em si, ver as pessoas caminhando, os cães de estimação brincando, as árvores se balançarem com o vento, as nuvens e o sol, que foi tão precioso para o dia gelado.
1. O Centro Budista foi fundado por S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche
Rinpoche nasceu no Tibete em 1930. Aos quatro anos foi reconhecido como um tulku (encarnação de um mestre de meditação). Fugiu de uma invasão comunista no país de nascimento em 1959. Após, viveu em comunidades na Índia e no Nepal. Em 1979 foi para os Estados Unidos. Veio residir no Brasil em 1994, onde estabeleceu o Chagdud Gonpa Brasil, uma rede de centro budistas. No Brasil, construiu o templo budista de Três Coroas. Acabou falecendo em 2002.
2. O templo/Centro Budista de Três Coroas é a sede brasileira do Chagdud Gonpa Brasil
O Chagdud Gonpa Brasil também foi fundado por Rinpoche e faz parte de uma rede internacional de centros budistas, originários do Chagdud Gonpa no Tibete.
3. Antes de morrer, Rinpoche escolheu sua esposa para ser sua sucessora como diretora espiritual no Chagdud Gonpa da América do Sul.
Chagdud Khadro foi aluna por mais de 20 anos de Rinpoche. Hoje ela é uma das Lamas residentes do templo de Três Coroas, onde dá continuidade no trabalho iniciado pelo marido.
4. O próprio Rinpoche esculpiu algumas estátuas que estão no Centro Budista
Rinpoche e seus alunos esculpiram a estátua de “Guru Rinpoche”, o responsável por levar o budismo da Índia para o Tibete, e do “Buda Akshobia”, buda que protege as pessoas da negatividade decorrente da raiva.
5. A Terra Pura de Guru Rinpoche guarda as cinzas de seu fundador
A Terra pura é uma espécie de Templo localizado no Khadro Ling. Nesse espaço ficam as cinzas de Rinpoche e imagens que ilustram sua vida e linhagem.
Segundo o livro O que é budismo de Antônio Carlos Rocha, budismo é uma palavra ocidental para denominar o conjunto de práticas, pregações e vivências dos ensinamentos de Siddhartha Gotama, o Buda. O budismo mantém-se aceso há mais de dois mil e quinhentos anos, mas para sua origem alguns autores marcam a data de 523 a.C., outros 526 e até 556, mas o certo é que ele nasceu no sexto século antes da era cristã. A doutrina formulou seu pensamento no sentido da palavra sabedoria e no caminho do discernimento. A diferença fundamental entre o budismo e as demais religiões é a inexistência da crença de um Deus criador.
De acordo com o livro O buda e o budismo de Maurice Percheron, o príncipe Siddhartha cresceu com os jovens nobres de sua idade. Por três vezes seus olhos testemunharam a dura realidade da vida. Na primeira vez encontrou um ancião com o corpo devastado por seus 80 anos de idade, na segunda atraído pelos lamentos de um homem mordido pela peste negra, e na terceira ao cruzar, nas margens do rio, por uma procissão que conduzia, entre soluços, um cadáver para a fogueira. O encontro com um religioso, um bhikshu, a mendigar o próprio alimento revelou ao príncipe a primeira etapa da libertação. Siddhartha recusou a coroa e devotou toda a sua vida à procura de uma luz que lhe era desconhecida, mas que traria a libertação às criaturas humanas. Atingiu a iluminação em Bodh Gaya.
Gabriel Grossi em seu livro Histórias das Religiões – Onde vive Deus e caminham os peregrinos, relata que diante de tudo isso nasceram as Quatro Nobres Verdades, uma das doutrinas centrais do budismo. Em termos simples funciona assim: a primeira verdade é identificar que há sofrimento no mundo. A segunda, por sua vez, diz que o sofrimento tem uma causa. A terceira em relação com a segunda diz que podemos colocar fim ao sofrimento eliminando a sua possível causa. E por fim, a quarta concretiza que há um caminho pelo qual podemos efetivamente pôr fim ao sofrimento. Em outras tradições, dá-se o nome de ignorância à causa do sofrimento, em outras ainda, o de desejo.
Sim, a meditação é umas das práticas mais conhecidas, ela é a base de todo o esquema teórico do budismo. Assim como fala o livro O que budismo de Antônio Carlos Rocha, a meditação torna-se um processo de autoanalise, de autoconhecimento e o caminho mais curto para esse resultado é a prática na atenção da respiração. O diferencial é que a concentração está relativamente na respiração, em outras religiões é por meio de orações, terços, rosários, repedindo uma determinada fórmula, visualizando um objeto ou imagem, tentando pôr a mente em estado de alerta. No budismo há ainda outros mecanismos como ritos, canções e gestos para a prática.
Para efetivar de forma simples a meditação, você pode se sentar em um banco, numa cadeira ou mesmo em uma almofada, mas evite lugares confortáveis como poltronas, sofás ou colchões. Para os praticantes o pensamento tem nome e forma, logo, é um corpo e possui vibrações. A chave da meditação é a chave do budismo, e nesse ponto não há diferenciação entre o Theravada, o Zen, o Tantra, etc. Muda-se as roupas, mas o objetivo prevalece.













