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JUDEUS NO RIO GRANDE DO SUL

Uma história de superação

Saiba mais sobre essa tradição acompanhando a visita à primeira sinagoga do Rio Grande do Sul

GUILHERME TEIXEIRA

guilhermeteixeira2014@gmail.com

Sinagoga Yitzhak Rabin completará 100 anos em 2023 | Foto: Guilherme Teixeira

Eram por volta das 5h30 quando acordei. Fazia muito frio em Vale Verde e a viagem até Santa Cruz do Sul e, posteriormente, até Santa Maria seria longa e gélida. Passei água na cara e escovei os dentes. Enquanto isso, Bruno Seligman, presidente da Sociedade Beneficente Israelita de Santa Maria e professor do curso de direito da Universidade Franciscana de Santa Maria, fazia o mesmo, já que, como faz parte de uma corrente liberal judaica, não necessita de nenhuma mudança  no seu dia a dia. Como, por exemplo, usar chapéus ou quipás o tempo todo como modo de demonstrar respeito a Deus; no sábado, ele pode andar de carro, algo explicitamente proibido na corrente ortodoxa por ser época do shabat. Se fosse mulher, não poderia usar roupas com decote ou acima dos joelhos, muito menos andar sem o marido à noite. Bruno é um cara normal, tem por volta de 1,80 metros, pesa uns 100 quilos, costuma vestir terno, usa cabelo penteado para trás, é um pouco calvo. O ônibus demoraria três horas para chegar até à sinagoga, aproveitei para organizar melhor as perguntas e fiz o prelúdio deste texto.  

Quando cheguei, por volta das 9h50, Bruno ainda ministrava sua aula na Universidade Franciscana da cidade. Peguei um Uber, um Fiesta 1.6 Titanium modelo 2013, vermelho e, como tenho hábito de conversar, contei a história da missão que estava fazendo para o motorista Victor Hugo, por coincidência, um judeu – tudo que eu queria. Hugo é um cara de 50 anos, trabalha com o serviço há pouco tempo, pois se aposentou no início do ano. É alto, branco, estilo tio (careca, gordo e gente boa). “Já sofri por ser judeu, diziam que meu lugar era em Israel e perguntavam como eu não era rico, já que todos somos”, desabafa Hugo. Segundo a Halachá, ele não é realmente judeu, pois não fez todo o acompanhamento necessário – alguns dos passos são: ir para Israel ou Estados Unidos em um tribunal rabínico, circuncisão para os homens, não se alimentar de carne de um animal não purificado ou sacrificado no padrão judaico (nada de carne de matadouro, então), estudar o judaísmo por, no mínimo, um ano, saber o básico do hebraico - só concorda e simpatiza com a religião, mas se considera judeu de alma, sim.

Enfim, chego ao destino, Sinagoga Yitzhak Rabin. Chove fraco, venta e relampeja às vezes, clima de inverno antecipado. A rua é pacata, pequena, casas com grades baixas e sem edifícios. O  que impressiona é o contraste azul e branco característicos da religião presentes na igreja, já que a bandeira de Israel é assim, optou-se, na reforma de 1994, por manter tais cores. “Sempre que passava aqui me chamava atenção, um dia entrei e não saí mais”, explica o zelador Jair, que até ontem vislumbrava a igreja e hoje toma conta dela. Realmente chama o olhar de quem passa, se impõe com vigor impressionante, com uma cerca de ferro com rosas vermelhas à frente. O gramado é verde e bem cuidado, o entorno é limpo e o limite é delimitado por uma casa e um prédio. Leio a plaquinha contando a história da igreja, por meio de doações e investimentos externos ela foi construída em 1923 pelos judeus que emigraram em 18 de outubro de 1904, na colônia Philippson. Tombada como Patrimônio Histórico e Cultural de Santa Maria em 2002, chegou a chamar certa atenção, mas nada que compreendesse uma reportagem mais aprofundada.

 

“Um dia entrei e não saí mais” 

 

Bruno estaciona seu Jeep Compass exatamente às 10h40 e me dirijo até ele. Me cumprimenta com um aperto de mão e pergunta se cheguei bem, digo que sim. Começa me dizendo que a sinagoga passou por uma reforma de três anos, desde 1994 até 1997. O feitio é característico de pequenas sinagogas: há duas janelas brancas de madeira; duas placas de mármore no alto, uma com os 10 mandamentos em hebraico e a outra com séculos escritos em romano até o número X; a estrela de Davi, um dos símbolos judaicos, fica no meio. Bruno conta  que o local irá completar o centésimo ano em 2023, mas que a peça de cimento com os mandamentos judaicos data de 1918, embora fora quebrada e remontada em uma nova placa de cimento, ainda perdura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entramos e o visual ainda impressiona. O piso é todo de madeira, com mesclas de marrom escuro e claro, dando um contraste impactante, as paredes são brancas - assim como quase tudo ali. Bruno explica que a  guampa ao lado de um pergaminho no centro do palco não se trata de um berrante, mas um Shofar, instrumento de sopro usado para demarcar os finais de culto. Não ministrados por rabinos, mas Razans. Esses religiosos são membros com mais conhecimento dentro do grupo, algo aceito pela religião. O culto pode ser feito até em uma casa, mas, segundo a Halachá, necessita-se de 10 homens com mais de 13 anos para dar início. Com uma comunidade de 30 judeus, fica impossível, então contam mulheres.

Tais cultos baseiam-se na leitura de contos, cantos com presença de teclado (isso mesmo) e debates entre os presentes. As duas torás que são autênticas e feitas à mão em forma de papiro ficam protegidas por um pano e pela Arca, chamada de Aron Kodesh, só são desenroladas por rabinos em momentos especiais. Os principais são Yom Kipur e Rosh há Shaná. Bruno segue  mostrando o local, pergunto se não precisamos colocar o quipá, como estamos em uma conversa e não em um culto, não é necessário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Me chama a atenção muitos nomes em um quadro, meu “guia” conta que os judeus só homenageiam os mortos, então, quando a reforma começou, todos os doadores citaram nomes de parentes e somente eles foram agraciados. Ao me virar para tirar fotos, noto uma escada e cadeiras acima do local de culto, no passado esse lugar fora designado às mulheres desde 1993 até 1997 pelo fato de elas não poderem ficar no mesmo espaço dos homens. Mesmo não sendo uma comunidade ortodoxa, até aquela época, esse paradigma era mantido e tratado como normal. Tempos depois, quando rabinos vinham à sinagoga (no Yom Kipur ou no Rosh há Shaná) não era permitido o aperto de mão delas, já que só eles detinham o controle sobre isso.

 

 

 

 

 

 

Histórico de perseguições

Holocausto, mortes, ódio e preconceito são termos geralmente frequentes quando se debate a história da religião judaica. Sendo a primeira religião monoteísta (cerca de 4000 anos), teve seu prelúdio com os Hebreus do Antigo Oriente e com as Tribos de Israel. A gama de fiéis judaica conta com o menor expoente dentre às três maiores religiões monoteístas: Cristianismo, Islamismo e o próprio judaísmo: algo em torno de 13 milhões no mundo todo. Muito se deve ao fato de não contar com missionários para recrutar fiéis, e, quem se torna judeu, segue os preceitos da Torá (chamada de bíblia Hebraica, que conta com o velho testamento, os cinco primeiros livros da bíblia, o chamado Pentateuco, escrito por Moisés) ao pé da letra, aceitando os mandamentos e respeitando as coerções descritas.

“Falo por mim e por minha comunidade. Temos no judaísmo muito mais um sentimento de pertencimento e valorização da cultura e origem do que religião”, explica Bruno. Santa Maria é o berço da imigração judia no Estado, os primeiros judeus a chegar no Rio Grande do Sul desembarcaram na fazenda Philippson em 18 de outubro de 1904, fazenda esta comprada pelo milionário Barão de Hirsch e loteada para o uso de famílias que desempenhariam o serviço agropecuário. Como esse povo não tem por caraterística a vida na terra, migraram para a cidade, iniciaram no comércio e trouxeram o crediário para lá. Progredindo no ramo, a segunda geração (1950) mirou nos estudos, adentrou  no ensino superior nas três principais categorias: medicina, direito e engenharia.

Meio emocionado, suando frio, com as mãos irrequietas, Bruno continua lastimando o decréscimo de judeus em Santa Maria, de berço da religião para um papel de passagem na vida das pessoas. Muito graças ao êxodo na busca de empregos, principalmente para Porto Alegre. Com um total de 30 integrantes realmente convertidos, não chega a passar de 0,01% da população santa-mariense. Simpatizantes até frequentam os cultos de recepção do shabat na sexta, por curiosidade, não passa disso. “Curiosidade leva à progressão da fé”, explica Bruno.

Como Bruno Seligman é advogado criminalista, presidente da Sociedade Israelita e professor, sua vida é bem corrida. Noto que ele se agita ou pela questão do tempo (já são 11h50) ou pela pergunta sobre a origem religiosa dele. Me fala sobre o compromisso em um tribunal na primeira hora da tarde e que, por isso, falará uma última vez. “Minha família paterna não é judia, mas respeita a vertente religiosa da parte materna. Meu tio-avô foi o primeiro da família a vir para cá da Europa, logo depois chegou o pai do meu avô, então meu avô nasceu aqui, em paz. Com minha avó é diferente. Ela veio fugindo dos nazistas, anteriormente eram da Polônia na década de 1930.

 

Foram tratados como ratos, vistos como inferiores e taxados como mensageiros de contas e maus presságios, assim eles “poderiam” persegui-los. Minha avó desembarcou em um dia frio, com medo, sem o resto dos parentes e com um futuro incerto. Infelizmente (por sair de sua terra natal) ou felizmente  (por escapar dos nazistas), sete anos após a emigração para Porto Alegre, o restante da minha família fatidicamente teve seu esconderijo descoberto na Polônia e acabaram trucidados; um por um; criança por criança”, lamenta Bruno. Por isso, ele decidiu ir pelo viés da proteção da família e cultura em contraponto ao restante da família que rumou para a capital ou lugares com maior desenvolvimento empresarial e optou por nunca sair de Santa Maria, seja por manutenção da fé ou árvore familiar.

Segundo o próprio Bruno Seligman e o professor de Hebraico alguns termos e denominações se tornam imprescindíveis para o entendimento da religião.

CURIOSIDADES E PENSAMENTOS DA RELIGIÃO JUDAICA 

O Presidente da Sociedade Beneficente Israelita de Santa Maria Bruno Seligman e o professor de hebraico Artur Mendes Kur nos explicam curiosidades e mitos da religião judaica.

Confira os termos abaixo:

 

1. Regras Alimentares: Existem regras alimentares presentes no Kashruth, mas como são muitas, somente uma parcela consegue segui-la à risca. Por exemplo: carne de porco nem pensar, carne de gado e de açougue em geral só verificada por fiscais religiosos.

2. Deus: não acreditam em personificações e ídolos. A divindade não é aquele cara branco, alto, com grande barba e cabelo. Creem, que é uma força, pensamento e convicção.

3. Rezar: segundo a Halachá, dever-se-ia rezar desde o anoitecer da sexta até o mesmo momento do sábado. A tradição diz que algumas coisas devem ser respeitadas neste determinado tempo: pegar em dinheiro? Não pode. Dirigir? Não pode. Marcar um misero chiclete? Não pode.

4. Judeus são ricos: nem todos os judeus são ricos, bem como nem todos os budistas são monges. O apreço pela medicina e a cultura do ensino superior sempre foram perpassadas e incentivadas pelo povo judeu. Quando chegaram ao Brasil, rumaram para as cidades, trabalharam principalmente no comércio e em universidades. Por consequência dos estudos, muitos atingiram uma situação financeira abastada, não todos como se pensa.

5. Circuncisão: dependendo da vertente religiosa, os meninos são circuncisados no oitavo dia após o nascimento. Mas em famílias e comunidades liberais, o ato se torna facultativo.

6. Mulheres: Não podem tocar nos homens (devem deixar serem tocadas). Devem cuidar do filho integralmente (marido se responsabiliza pelo sustento). Ficam em regiões separadas nas sinagogas. Caso o relacionamento termine, são culpadas pelo fim e taxadas como promiscuas – tais coerções compreendem a vertente ortodoxa, na vertente liberal elas detém os mesmos direitos.

7. Jesus: um profeta , influenciador, alguém com ideias novas e diferentes de sua época, nada mais. Não é filho de Deus.

8. Vida após a morte: não há reencarnação ou algo do gênero. Só o Sheol, lugar neutro, quieto, parecido com um poço, onde não tem volta – bem, não tem nada lá.

CALENDÁRIO JUDAICO

Utilizam o calendário lunissolar. Ou seja, baseiam-se na lua e no sol.

GLOSSÁRIO

Kashruth: um manual de regras alimentares e comidas, carnes que compreenderem tais imposições são tidas como puras.

Shabat: sinônimo de descanso e reza, semelhante ao sábado.

Shofar: um chifre parecido com o berrante brasileiro, demarca inicios, fins e anúncios de datas sagradas.

 

Yom Kipur: dia mais sagrado para os judeus. Geralmente cai entre setembro e outubro e marca o Dia do perdão.

 

Rosh há shaná: ano novo judaico. Diferente do resto da população, o 1 de janeiro dos judeus fica entre setembro e outubro, mas seu calendário também compreende doze meses.

 

Aron Kodesh: arca sagrada que representa a ligação dos judeus com deus e onde se guardam Torás da sinagoga ou demais materiais religiosos importantes.

 

Quipá: pequena touca representando o respeito perante deus nas orações.

 

Razam: cantor da sinagoga, lê em hebraico e entoa os cantos.

 

Halachá: tradição judaica, muitas vesses imutável.

 

Sucot: constrói-se uma sucá ou cabana e mora-se lá durante 7 dias, torna-se um feriado constituído de

diversos tipos de orações.

 

Pessach: páscoa.

 

Simchat Torá: ocorre no oitavo dia após o sucót. Encerra-se e inicia-se a leitura anual da Torá.

Pentecostes: festa em memória do dia no qual Moisés recebeu de Deus as Tábuas da Lei.

Yom Hashoá: dia da lembrança do Holocausto.

A placa de 100 anos com os 10 mandamentos da lei judaica foi quebrada durante a reforma de 1994 e remontada sob um suporte de cimento| Foto: Guilherme Teixeira

Shofar utilizado pelos razans no término das cerimônias | Foto: Guilherme Teixeira

Quipás que devem ser usados em horários de cultos ou cerimônias no geral| Foto: Guilherme Teixeira

Assoalho em madeira com a escada destinada às mulheres que foi abandonada em 1997 por entenderem que todos podem frequentar o mesmo espaço

Foto: Guilherme Teixeira

Imagens: Divulgação

Glossário
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