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O futuro do Catolicismo

JOÃO VALTER SILVEIRA DOS PASSOS

A catedral São João Batista, símbolo de fé de um povo | Foto: Adriana Cárdenas

Com um saboroso chimarrão, padre Roque Hammes, 63 anos, 36 de sacerdócio, recebe a reportagem para uma conversa a respeito do futuro do Catolicismo. Assessor de comunicação da Diocese de Santa Cruz do Sul e também Coordenador de pastoral, mostra-se solícito e muito simpático ao aceitar falar sobre a Igreja e o fazer religioso de um sacerdote. Ele segue à risca as orientações do Papa Francisco que prega uma participação mais efetiva na comunidade e nos movimentos sociais, como forma de aproximar igreja e fiéis. “Trabalhar com as realidades locais e individuais. Uma igreja acolhedora, como quer o papa.”

Padre Roque acorda normalmente às 6 horas da manhã e reza a Oração da Liturgia das Horas, oficial para padres e religiosos, com a leitura de salmos e do evangelho. A seguir, uma olhada nas redes sociais, usadas por ele para escrever a respeito de assuntos atuais e relevantes, posicionando-se de forma muito firme. Então, verifica e-mails, depois segue para tomar o café, já com o rádio ligado para acompanhar o noticiário. Caso ainda tiver tempo, lê alguns jornais, mas essa tarefa é feita habitualmente no fim de tarde. Durante o transcorrer do dia acessa sites de notícia para ficar por dentro dos acontecimentos.

Agora, é hora de trabalhar. Atende a imprensa e orienta as pessoas que o procuram e organiza a agenda do serviço da pastoral, que atende 41 municípios, função que exige muitas viagens. Participa das atividades do Comitê das Águas da Baciado Rio Pardo. São muitas as atribuições. Mas não é só isso.

 

Tem também uma missa por mês na comunidade Espírito Santo, no Bairro Arroio Grande e em outras comunidades, quando há necessidade. Padre Roque procura estar ao máximo próximo à comunidade, estar atento as questões sociais, políticas e da realidade local e, claro, não esquecendo da parte espiritual que é a essência da igreja. “A igreja tem de estar no mundo, não acima dele”, afirma, reproduzindo orientação do Concílio Vaticano II. Como se pode perceber são muitas as funções exercidas por padre Roque. Além dessas já citadas, ele também é editor da Revista Integração, publicação da diocese. Revista na qual também escreve.

 

Assim, ele destaca a função da igreja e de como deve ser a participação do cristão no dia a dia comunitário, a preocupação com o ser humano, com a natureza e com o mundo. A igreja sempre teve como princípio acolher a todos aqueles que a procuram, independente de condições sociais e mesmo aqueles que estão à margem da doutrina, o que também é uma orientação reforçada pelo papa.

“A Renovação mudou a minha vida”| Foto: João Valter Silveira dos Passos

O santa-cruzense Sérgio Moacir Duré, militar aposentado, também acorda cedo. O primeiro movimento é fazer o sinal da cruz e orar em agradecimento por mais um dia de vida e pedir a Deus que o conduza em suas atividades. Assim é desde 1994, quando conheceu a Renovação Carismática Católica e a ela se entregou inteiramente. Como ele mesmo diz: “A Renovação mudou a minha vida”. Participante ativo, hoje faz parte do Grupo Água Viva, na função de coordenador do ministério de oração por cura e libertação. O grupo mantém encontros às quintas-feiras, às 19h30, no salão comunitário da Catedral São João Batista. A Renovação é um movimento forte no Brasil e no mundo, mas onde e quando ela iniciou?

A Renovação

Segundo as informações de Sérgio duré, a Renovação surgiu no início de 1967 em Pittsburgh, Pensilvânia, quando um grupo de professores e alunos da Universidade de Durquesne buscava inovar na maneira de louvar e, para tal, decidiu fazer um retiro espiritual. Foi a partir desse retiro que um novo movimento começou a tomar forma. Conforme Duré, o movimento teve como uma das principais influências o livro “A Cruz e o Punhal”, do escritor protestante David Wilkerson. No Brasil chegou em 1979 e completará 40 anos em 2019.

 

Com formação em direito, Ciências Contábeis e Administração, Sérgio Duré, nos conta que tinha a intenção de abrir um escritório para exercê-las, no entanto, nesse tempo encontrou a Renovação e tudo mudou.Ele considera-se muito grato, pois “a vida religiosa, antes vazia, ganhou novo significado”. Segundo relata Deus deu um novo rumo à vida dele. Hoje na reserva, dedica-se a família e a Renovação. Na agenda consta participação em encontros de preparação, campanhas de arrecadação de alimentos, missas diárias nas diversas comunidades da cidade e rezar o terço todos os dias. Só nessa tarefa leva quase duas horas, pois é também um exercício de meditação. “É uma entrega total”, relata,com brilho nos olhos.

 

Um sentimento de quem realmente vive a fé de forma plena. Assim é Sérgio Moacir Duré que demonstra muito conhecimento e facilidade para falar de maneira contagiante e com muita alegria da Renovação Carismática Católica e do que ela fez na vida dele. Embora o principal objetivo seja o desenvolvimento espiritual, essência da Renovação, que tem como célula básica o Grupo de Oração aberto para todos os que necessitam de orientação, há também a necessidade de participação social e política, como observa Sérgio “É preciso participar da política efetivamente.” Hoje, o movimento conta com representantes na Câmara Federal.

 

A Renovação ganhou expressão no Brasil e trouxe um novo jeito de manifestar a fé. Com mais animação, oração, pregação e com a ação do Espírito Santo nos encontros, conforme acreditam os carismáticos. “É um movimento oficial da Igreja Católica Apostólica Romana e por isso fiel à doutrina, não contrariamos em nada a doutrina da Igreja”, frisa Duré. Um milagre, acredita Sérgio Duré! Assim define o que aconteceu com ele em 2016. Com problemas sérios de saúde foi praticamente desenganado. Os médicos chamaram os familiares e “pediram para se prepararem para o pior”. Recuperou-se, porém. Isso ele atribui às orações e vigílias dos grupos de oração e, claro, pela ação de Deus.

 

Para quem vai à primeira vez ao grupo de oração, pode sentir-se assustado ou surpreso com o Repouso no Espírito ou a Oração em Línguas. São momentos de intensa ação do Espírito Santo, como acreditam os participantes.

 

O repouso é um descanso, uma entrega. “Algumas pessoas deitam, entregando-se integralmente e descansando no Espírito. Deitam, repousam, têm consciência, mas não têm forças para levantar. Ao retornarem, sentem-se leves.” Repouso e Oração em línguas são muito íntimos e pessoais, podem ser impressionantes para quem não está habituado. São formas de expressão de fé e de demonstração de uma igreja que está em movimento.

 

Padre Roque Hammes e Sérgio Moacir Duré são exemplos dessa igreja em movimento e que, ainda que tenha perdido fiéis nas últimas décadas, continua forte e na busca de soluções para trazer e manter o seu rebanho. Uma tarefa não muito fácil, pois surgiram muitas religiões nos últimos tempos que estão atraindo muitos daqueles que se declaravam católicos. Isso demonstra a necessidade de uma tomada de decisões para permanecer como a grande religião mundial que é desde o seu início. E, como tudo começou?

Oração em Línguas.

Não é muito fácil explicar em palavras como, mas Sérgio Duré define-a como a “oração mais perfeita, pois nela não há interferência do maligno. Nem quem reza e nem quem ouve sabe o que se está orando, mas o espírito que sonda os corações, entende, acolhe e atende”. Duré segue na sua explicação “a oração é com sons que o Espírito Santo distribui a cada um”.

 

Quem nunca presenciou esse momento talvez tenha dificuldade de entender como funciona, mas Sérgio continua a explicação, destacando que “no início, muitas vezes é por influência dos outros que estão orando em volta, mas o Espírito Santo vai aprimorando a oração, que passa a ter o seu próprio som”.

 

Duré encerra o relato, reproduzindo o capítulo 8, versículos 26 e 27 da Epístola de São Paulo aos Romanos que é à base da Oração em Línguas: ”Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o qual intercede pelos santos, segundo Deus.”

Enfim, trata-se de uma oração feita com o coração, com sons que não são entendidos pela razão ou inteligência humana. É guiada pelo Espírito Santo. Foi multo utilizada no início da igreja e retorna com força agora com a Renovação Carismática Católica.

Padre Roque Hammes| Foto: João Valter Silveira dos Passos

Padre Roque segue trazendo subsídio para se entender um pouco do que seja o catolicismo. É interessante destacar que o catolicismo teve suas origens no Judaísmo. Abraão, Moisés, os grandes profetas, contados lá no Velho Testamento. Era tempo de espera. O Salvador estava para chegar, assim profetizavam. Ele chegou, então, para mudar a lei dos homens e implantar a lei de Deus, a lei do amor. Inicia-se uma nova fase. O “olho por olho, dente por dente” não era mais a prática desejada.

 

Nem todos aceitaram a autoridade de Cristo e o que Ele pregava, mas deixou a mensagem de paz e a base do que seria o ideal da vida cristã. No final, a morte de cruz e a ressurreição. O medo tomou conta dos apóstolos, que já não tinham a presença física do mestre, até a vinda do Espírito Santo, acontecimento conhecido como Pentecostes, revitalizando a coragem dos discípulos que saíram para cumprir a ordem deixada: Anunciar o Evangelho a toda criatura. Missão da igreja. O centro da fé passou a ser Jesus Cristo, surgindo às religiões cristãs, entre elas a Católica. Com princípios rígidos, dogmáticos e doutrinais que seguem durante os séculos.

 

Hoje, em um novo contexto de mundo, ela tenta se adaptar, mas é importante destacar que não se trata de mudança na doutrina, pois essa é a base da igreja e orientação para os católicos. Trata-se de uma aproximação maior com as realidades sociais e individuais. Uma Abertura onde seja possível. A percepção da própria Igreja de que é preciso avançar já estava presente na convocação do Concílio Vaticano II, na década de 1960. Nessa caminhada histórica houve muitos momentos que podem ser destacados. Padre Roque trouxe oito fatos que considera importantes na construção do catolicismo.

como tudo começou?
oito fatos
  1. Nascimento, vida, morte e ressureição de Jesus, pois a partir de então Ele passou a ser o centro da fé, surgindo às religiões cristãs, entre elas a Católica;
     

  2. Pentecostes. Que é a vinda do Espírito Santo, fortificando os apóstolos que estavam amedrontados, após a morte de Jesus. Fortificados, saíram,para proclamar o Evangelho;
     

  3. Catolicismo se torna religião oficial do Império Romano com o imperador Constantino. Fato que uniu Igreja e Estado;
     

  4. Separação entre Igreja e Estado no Brasil com a proclamação da República em 1889;
     

  5. Eleição do papa João XXIII em 1958. Ele foi o responsável por convocar o Concílio Vaticano II;
     

  6. Concílio Vaticano II. Ocorrido entre 1962 e 1965. A Igreja que estava acima do mundo, pretende estar no mundo, na realidade;
     

  7. Eleição de Paulo VI em 1963. Continuidade do processo de abertura;
     

  8. Eleição de Francisco em 2013, primeiro papa jesuíta;

Concílio Vaticano II

“Precisamos arejar a Igreja”. Segundo Roque Hammes, foi com essa expressão que o papa João XXIII decidiu convocar o concílio. Era necessário trazer a igreja para o mundo, pois ela se sentia acima dele. Fazer parte não apenas das alegrias e sofrimentos espirituais, mas também estar inserida e participando das questões sociais das comunidades e das pessoas de modo individual. O padre não pode ficar indiferente ao sofrimento do povo.

 

Com o Concílio a missa, antes em Latim e com o padre de costas para os fiéis, passou a ser rezada no idioma local e com o padre de frente para os participantes. A Bíblia de uso exclusivo de padres e teólogos foi permitida aos católicos de modo geral. Outro ponto foi o fim da obrigatoriedade do uso da batina fora das atividades oficiais, ficando a cargo do padre usar ou não. E para atenuar a falta de padres, foi instituída a figura do Diácono leigo, casado.

 

Aliás, com relação a isso, Roque Hammes traz uma reflexão importante quando afirma: “Hoje estou convencido de que uma das causas da falta de padres, sim, é o celibato. Há uma grande dificuldade em renunciar ao casamento e a formação de família”. Porém, ressalta que o celibato não é um dogma, é uma norma que vigora desde o ano 1100 aproximadamente e confirmada em 1500 no Concílio de Trento.

 

Portanto, pode ser modificada. Inclusive, ainda segundo padre Roque, o papa Francisco, mesmo que não abertamente e oficialmente, já incentiva que bispos e padres comecem a discutir a respeito da ordenação sacerdotal de homens casados e até de mulheres.

 

O Concílio traz reflexos até hoje para a condução da igreja. Foi com ele que iniciou a aproximação entre as igrejas cristãs, o ecumenismo. A ideia de que apenas a Igreja Católica era detentora da verdade foi sendo desfeita e passou-se a aceitar ao menos a possibilidade de que outras religiões também poderiam ter sementes de verdade.

 

João XXIII teve um mandato curto, mas lançou as bases que tiveram sequência com Paulo VI, também com uma visão mais aberta em relação à presença da igreja no mundo. Com ele nasceu a Teologia da Libertação que teve uma importância muito grande em um período de tempo. Embora importante a Teologia ao que parece, não teve a compreensão de muitos e foi de certa forma, reprimida, devido ao caráter questionador em relação às questões sociais.

 

Após esse período de mudanças e transformações, a eleição de João Paulo II trouxe um retorno ao espiritual, pois como informa padre Roque, João Paulo II era muito rígido doutrinalmente. Era, porém, carismático, reunia multidões por onde passava. Era o papa do povo. Foi declarado santo em tempo recorde a partir da morte, muito disso devido à força apresentada durante os últimos momentos como papa. Mesmo muito doente, continuava firme na divulgação do catolicismo. Depois Bento XVI, também foi mais ligado à doutrina e ao espiritual.

“Uma grata surpresa”. A definição é de padre Roque. Francisco, o primeiro jesuíta a ser eleito papa, chegou trazendo novos ares. Desde o fato de dispensar o papamóvel, passando por mandar a leilão um veículo que ganhara em Roma, como informa nosso entrevistado. Francisco traz a preocupação com o indivíduo. Prega a tolerância e o respeito às diferenças. Pretende aproximar de forma mais real a Igreja oficial da realidade comunitária e individual. Tem a simplicidade, característica dos jesuítas, em suas palavras e ações.

 

No entanto, ainda não é possível mensurar até que ponto irá essas mudanças, o quanto de apoio ele terá. Porém, não há como negar que existe uma relação mais próxima entre a cúpula e as comunidades. Isso é bem vindo, pois é essencial na tarefa de manter e reconquistar os fiéis. As bases estão lançadas, mas tudo irá depender do próximo papa. Este, conforme Roque precisaria ter a visão próxima a de João XXIII, Paulo VI e de Francisco. “Hoje já se teria padres casados, caso houvesse a continuidade dos estilos desde João XXIII”, analisa Hammes.

 

Padre Roque Hammes diz ser preciso destacar sempre o papel da doutrina, que é à base da vida da igreja. É orientadora das ações. Essa permanece forte. As mudanças se ocorrerem serão naqueles pontos que sejam possíveis. Entre as possibilidades, a ordenação de mulheres na função sacerdotal, seria um grande avanço, aumentando a participação essencial delas na construção e reforçando o papel da mulher na igreja.

Papa Francisco

“A Igreja é feminina” Expressão que padre Roque atribui ao papa Francisco. É a marca de um maior reconhecimento do trabalho da mulher, pois sem elas a igreja não caminharia como caminha hoje. Nessa conversa, o entrevistado lembra que a grande maioria no comando são homens, o que é reflexo da sociedade, na qual está introjetada a ideia de que é o homem quem pensa. Está mudando, aos poucos, mas está.

 

Além da questão da mulher, a Igreja busca se posicionar a respeito da mudança no conceito de família, antes tradicional e também da diversidade de gêneros. Pode-se dizer que doutrinalmente, família é formada por homem, mulher e filho (s). Em todas essas situações, porém, a orientação é não excluir, mas sim, acolher como filhos amados de Deus, mesmo não concordando com as práticas. O que se tem é isto: a doutrina, rígida, com princípios definidos e a orientação de acolher, mais do que isso, seria especulação.

Crer em Deus faz parte da vida de milhões de pessoas no mundo. E as religiões foram criadas para servir como religação entre homens e Deus. Há uma esperança de algo melhor em outro plano, o que para os católicos chama-se Paraíso. Com isso, todo o peso, as dificuldades da vida são suportadas com tranquilidade e até com alegria, a recompensa será proporcional, assim acreditam.

 

Acordar cedo aos domingos e ir à missa é mais que um hábito, é uma obrigação, é cumprir a vocação perante a Igreja, com fidelidade. Nos lábios um sorriso de quem se sente realizado e completo na função de se renovar espiritualmente e ajudar o próximo nessa caminhada para Deus. Isso faz parte da vida de um católico atuante, exemplos dos entrevistados para esse trabalho. O dia a dia de uma comunidade está representado por eles, que se dedicam ao serviço evangelizador, cada um a seu modo, ajudando a alimentar a esperança em um mundo perfeito, aqui ou no céu.

 

O catolicismo é um ponto de referência para a espiritualidade, não há como negar. É questionada? Sim. É criticada? Sim. Isso faz parte da caminhada, pois dúvidas, críticas, afastamento, retorno, tudo integra a vida de um católico. Como disse Sérgio Duré: “A igreja é para os pecadores, pois os santos não precisam dela.”.

 

Acreditar em Deus é um direito. Buscar uma religião para chegar a Ele é um direito. Crer que exista uma ação divina nos acontecimentos é legítimo, não deve ser julgado, assim também é preciso respeitar quem pensa diferente ou não acredita em um Deus. Somos aprendizes, tentando nos encontrar. Essa busca tem momentos difíceis. Questionar e se questionar faz parte desse processo. Como diz o trecho de uma canção de padre Zezinho: “Não há libertação se eu não me questionar”.

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