
A terra santa,
o berço da fé
PALESTINA
Antonio Carlos dos Santos Madeira

Vista da cidade de Jerusalém antiga | Foto: Divulgação
Em meados dos anos 1940, judeus de todas as partes do mundo retornaram para a Palestina formando colônias ainda sionistas (que propunham o retorno da totalidade dos judeus ao atual Estado de Israel), que foram formando pontos de assentamentos. Em 1947, a ONU aprovou a partilha da Palestina, pois havia conflitos na região. Criou-se então um território árabe-palestino e outro judeu, e Jerusalém seria administrada pela ONU, por sua importância para as três religiões maometistas. Entretanto, a partilha ficou só no papel, pois quem assumiu a administração de fato foi Israel, porque, logo em seguida, no final de 1947, começou uma guerra civil e, em 1948, a guerra árabe-israelense.
Com esta guerra, Israel expandiu seu território para um total de setenta e oito por cento da Palestina histórica, e Jerusalém ficou dividida ao meio, pois a Jordânia, em socorro ao povo palestino, estacionou suas tropas e conseguiu defender o lado oriental de Jerusalém, onde estão os monumentos históricos e a cidade velha. A partir daí, a Jordânia passou a administrar a parte oriental em nome dos palestinos, a quem, historicamente, pertence o território. Israel ficou com a parte ocidental de Jerusalém. A ONU reconheceu esta divisão entre os territórios árabe-palestino e israelense após o armistício de 1949.
No vídeo abaixo, o cidadão palestino Misleh Mansour, casado com uma brasileira de Venâncio Aires, Rio Grande do Sul, durante sua visita a sua terra natal, nos fala sobre o porquê de chamarmos a Palestina de terra santa. Em Jerusalém, Misleh nos mostra a intensa visitação de turistas do mundo todo e o forte comércio à base de produtos religiosos, como símbolos das religiões, entre outros.
Em 1967, Israel invadiu a faixa de Gaza e as colinas de Golan da Síria, além do Sinai do Egito, que já foi devolvido. Israel invadiu também a Jerusalém leste oriental e se nega a devolvê-la. Este território não foi reconhecido pela ONU, que o considerou ilegal. Desta forma, nenhum país pode instalar suas embaixadas naquela área. O presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, incendiou esta disputa ao reconhecer Jerusalém Oriental como capital de Israel e, ainda, transferindo sua embaixada para lá.
Se houvesse um acordo de paz entre Israel e a Palestina, ambos poderiam declarar Jerusalém como Capital. Atualmente, Israel não tem permissão para se apossar de Jerusalém oriental e declará-la sua capital. As comunidades e a opinião pública internacional são contra este ato de Israel e se negam a instalar suas embaixadas na área invadida. Este pequeno pedaço de terra é disputado há séculos por ser o berço das três maiores religiões do planeta, que são o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo.
O Islamismo é a religião que mais ganha adeptos na atualidade. Sua origem remonta ao século Vll d.C., com as revelações ao profeta Maomé, o legítimo profeta de seu Deus. Os textos sagrados do Islã são: o Alcorão, obra que contém as revelações de Alá a Maomé; o Hadiith, contendo pensamentos e as ações de Maomé; e o Sunnah, conjunto de regras a ser seguido pelos islâmicos.
Duas vertentes são conhecidas no Islamismo: os Sunitas, com o maior e mais ortodoxo grupo islâmico, constituindo a maioria religiosa em países como Iêmen e Arábia Saudita, reconhecem Maomé por Abu Barkr e pelos três califas que o seguiram; e os Xiitas, que reconhecem a sucessão de Maomé por AAAli, seu sobrinho.
Os símbolos mais importantes para os islâmicos são a família e a mesquita. Estes são os elementos centrais da vida dos seguidores do Islamismo. As práticas são fundamentais, como por exemplo, as cinco preces diária a Alá; também os deveres para com os necessitados, de se oferecer a eles uma parte dos bens. Todos os seguidores da religião devem, pelo menos uma vez em sua vida, realizar a Peregrinação à cidade de Meca (também chamada de Hajj), na Arábia Saudita, simbolizando a própria peregrinação de Maomé.
O Ramadã é o período sagrado dos muçulmanos, durante o qual, entre o amanhecer e o entardecer, há obrigação do jejum. O mês é considerado sagrado e varia a cada ano, pois segue o calendário lunar. A prática é um pilar da religião islâmica, encarada como um exercício de aproximação de Deus. Na mesquita Brasil, a mais antiga da América Latina, situada num bairro central da cidade de São Paulo, a comunidade islâmica se reúne todas as noites, durante o Ramadã, para celebrar. Pontualmente às 17h32, o sheik faz o chamado para a reza. Tâmaras são distribuídas como primeiro alimento do dia. A oração é feita em direção a Meca, na Arábia Saudita. Logo após, é hora do jantar, cuja comida é farta. O jantar de quebra do Ramadã acontece todas as noites durante o mês. Na mesquita, são servidas, por dia, de 300 a 400 pessoas. O público aumentou bastante nos últimos anos com a chegada dos refugiados provenientes da Palestina, Líbia, Somália, Gâmbia e, principalmente, da Síria.
Em 2010, São Paulo tinha 11 mil muçulmanos, segundo o censo do IBGE. Hoje, o número deve ser bem maior, também pela presença dos estrangeiros. A mesquita Brasil começou a ser construída em 1929 e virou ponto de referência para quem vem de fora. Os refugiados que recebem ajuda pela mesquita são na faixa de 2 a 3 mil pessoas. Durante o Ramadã, além do jejum, os muçulmanos também intensificam a caridade e as práticas religiosas.

Segue foto da mesquita islâmica de SP | Foto: Divulgação
O Islã no cotidiano dos descendentes da Palestina no vale do Rio Pardo,
em Venâncio Aires
Jamal Alaian Aladim Aladim mora em Venâncio Aires desde 1995, quando veio da Palestina e casou-se pela primeira vez, tendo dois filhos - um menino e uma menina. Atualmente ele encontra-se em seu segundo casamento, no qual já teve mais uma filha. Desde que chegou ao Brasil, Jamal dedica-se ao comércio. Diz que sua família segue os costumes da religião islâmica de forma moderada, sem deixar de acreditar na religião. Ele afirma não praticar os preceitos de sua religião como de fato o faria se estivesse em sua terra natal. Jamal afirma não haver um local específico em sua residência para a reza. “É necessário apenas ter um tapete limpo para que as rezas possam ser praticadas, sempre direcionadas à Meca”, diz ele.
Jamal afirma que, já no período do Ramadã, a família faz as cinco rezas e obedece ao jejum diário. À noite, após o fim do jejum, um banquete é servido com a culinária árabe-palestina. Jamal gostaria de um dia poder realizar a peregrinação à Meca. Seus familiares que vivem no Brasil nunca foram e também têm o desejo de poder realizar este ritual. Ele afirma não sofrer preconceito e possuir uma boa relação com a comunidade local.
Ibtesam Hamid nasceu em Venâncio Aires, filha de descendentes palestinos, e trabalha há muitos nos no Fórum. Casou-se com Misleh Mansour, proveniente da Palestina. Eles têm um casal de filhos. Atualmente, Misleh Mansour encontra-se em sua terra natal visitando seus parentes, os quais não via há quase vinte anos. Segundo Ibtesam, a família é considerada sagrada por todos os muçulmanos. Os pais dela, que também moram em Venâncio Aires, seguem a rigor os costumes da religião islâmica. Apesar de estarem há muito tempo longe de sua terra natal, eles mantêm a tradição e ensinaram seus filhos e netos a praticar o Ramadã e a respeitar o jejum.
A mãe de Ibtesam realiza as cinco orações diárias em sua residência, onde não há um local específico, mas somente um tapete limpo, sem impurezas e direcionado à Meca. O jejum é um período de muita reflexão, no qual o pensamento se volta para as pessoas menos privilegiadas. Respeitam-se as cinco rezas diárias e, à noite, após o pôr do sol, são servidos os pratos típicos da culinária árabe. Ibtesam afirma que nenhum dos membros de sua família fez a Peregrinação a Meca (Hajj) ainda. Antes de ir, é recomendável fazer a Umrah, que é uma peregrinação menor e que pode ser realizada em qualquer período do ano. Ibtesam afirma que sua família não sofre preconceito por ser árabe, muçulmana e praticante do Islã. Segundo ela, há um relacionamento de bastante respeito com a comunidade.