
AFASTADOS NA HISTÓRIA,
mas unidos pela fé em Deus
Conheça a religião que surgiu a mais de 500 anos. Uma reportagem com entrevistas exclusivas,
desmistificando os principais paradigmas da religião Evangélica
KIMBERLY SAMANTHA EBERT LESSING
kimberlylessing@outlook.com
MARTINA FERREIRA STURM
martina_fsturm@hotmail.com

Os evangélicos que conhecemos hoje surgiram depois de um movimento de contestação religiosa, que ocorreu na Europa, no início do século XVI, conhecido como Reforma Protestante. A Igreja Católica na Idade Média havia incorporado muitas práticas políticas, que foram questionadas por determinadas pessoas. Esses indivíduos, em alguns casos, acabaram sendo condenados pelo Tribunal da Santa Inquisição. Entre as ações da Igreja estava a venda de indulgências – documentos que garantiam ao seu comprador o perdão de seus pecados.
O professor do curso de História da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Roberto Radünz, aponta outros fatores que criaram um cenário favorável à Reforma: as transformações em parte da Europa com a ascensão do capitalismo e de novos estratos sociais, principalmente a burguesia, que buscavam uma ética religiosa alinhada ao novo tempo, marcado por navegações, comércio, mercantilismo, colonialismo, entre outros.
Nesse contexto, ganham visibilidade as ideias revolucionárias de um monge alemão chamado Martinho Lutero. Ele, que chegou a ser professor de Teologia na Universidade de Wittenberg, pensava que o indivíduo pode alcançar a salvação unicamente através da fé. Keith Randell, em seu livro “Lutero e a Reforma Alemã”, diz que, para o monge, as boas ações, além de ineficientes, poderiam levar à condenação, se vistas como substituto para a fé.
Radünz explica que, paralelo ao protagonismo de Lutero, mais duas vertentes contestaram a hegemonia da Igreja Católica no período medieval: o calvinismo, com sede em Genebra, na Suíça, e o anglicanismo, na Inglaterra. Esses movimentos discordavam da tradição de que apenas o clero poderia interpretar a Bíblia, que estava escrita em latim, pois somente eles dominavam o idioma. Acreditavam que o papel da liderança religiosa era ajudar os indivíduos a conhecerem Deus e, portanto, todas as pessoas deveriam compreender o livro sagrado. Com isso, originaram-se diferentes correntes protestantes tradicionais, dentre elas o luteranismo.
No livro “A invisibilidade da desigualdade brasileira”, o sociólogo Jessé Souza conta que, no início do século XX, surgiu, nos Estados Unidos, uma nova denominação protestante, o pentecostalismo. Ele era reprovado tanto por católicos quanto pelos evangélicos tradicionais. Uma de suas principais características é a crença nos poderes do Espírito Santo. A Assembleia de Deus é uma das igrejas pentecostais mais conhecidas do Brasil.
Mais tarde, por volta da década de 50, verifica-se uma nova onda – o neopentecostalismo. O sociólogo Ricardo Mariano afirma em seu livro “Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo brasileiro”, que esse movimento provocou o aumento expressivo de igrejas evangélicas e cada vez mais pessoas estão seguindo esta religião. Desse segmento, as mais populares são a Igreja Internacional da Graça de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus. A Família da Fé, fundada em 2016, está entre as neopentecostais mais recentes.
Luteranos: nem tão tradicionais assim
“Ser luterano é ser alegre e estar de bem com a vida, pois tudo o que somos e temos vem graciosamente de Deus”. É assim que o pastor Décio Weber, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB) de Vera Cruz, define essa ramificação do Cristianismo que surgiu a partir da Reforma iniciada pelo monge alemão Martinho Lutero.
Os principais referenciais da Igreja Luterana são a Bíblia, composta pelo Antigo e Novo Testamento, bem como a interpretação e a atualização da palavra de Deus. Esses são documentos que fazem parte da história da igreja e apontam para a liberdade da vivência, uma das características marcantes do luteranismo: “Deus não quer nos prender, ele nos dá a liberdade para vivermos a vida da melhor forma possível”, afirma Weber.
Os luteranos são livres para praticar sua fé no dia a dia e não somente na igreja. Os membros da IECLB são incentivados a se envolverem em movimentos sociais e sindicatos, na busca dos direitos dos cidadãos. Assim, testemunham a fé sem falar diretamente sobre sua entidade religiosa, exercendo a ética, o respeito e considerando o próximo como um ser igual.
A valorização da mulher é um aspecto notável dessa igreja, visto que não há somente pastores, mas também pastoras. Ela é valorizada, inclusive, em outros setores: na escolha das lideranças da comunidade zela-se pela igualdade entre homens e mulheres. “A mulher tem muito a contribuir enquanto liderança”, diz o pastor. Para ser ordenada pastora a mulher precisa cumprir o mesmo requisito que o sexo masculino: cursar Teologia.
Os cultos são envolventes e acolhedores, com cantos, orações e leituras bíblicas. Neles, busca-se ir ao encontro daquilo que faz parte do cotidiano dos indivíduos e atualizar a palavra de Deus de acordo com a situação que se vive. O batismo é realizado na presença da comunidade e, através dele, a pessoa batizada passa a integrar o corpo de Cristo, que é a Igreja.
O batismo é oferecido tanto para crianças, a forma mais frequente, quanto para adolescentes e adultos. No caso das crianças, os pais e padrinhos se comprometem a educá-las na fé cristã. Ao completar 12 anos o jovem participa do ensino confirmatório e, depois de dois anos, acontece o culto de confirmação. Já no caso de adolescentes e adultos, o compromisso é assumido por eles mesmos. A IECLB reconhece o batismo realizado em outras igrejas cristãs, quando feito em nome do Trino Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, onde a água utilizada é o símbolo visível da presença de Deus.
Segundo Weber, cada pessoa batizada diante de Deus é um sacerdote ou uma sacerdotisa, pois todos devem se envolver na comunidade. Cabe ao pastor coordenar o trabalho pastoral com a ajuda dos membros. Os integrantes são também convidados, a partir da confirmação, a contribuir financeiramente com a congregação. Um desafio da Igreja é que essa contribuição aconteça de forma voluntária. Dificuldades financeiras, desemprego e doenças geralmente são levados em consideração e os valores podem ser quitados quando o problema tiver sido solucionado.
Os luteranos entendem que a Igreja deve estar presente em todos os momentos da vida, sejam eles bons ou ruins. Por isso, prestam conforto à família enlutada e sepultam a pessoa que faleceu, pois creem que Deus existe sobre a vida e a morte. O pastor Décio Weber explica que pelo falecido nada mais se pode fazer, mas o compromisso é com os que ficam.
A emoção provocada pela presença de Deus
As igrejas pentecostais recebem essa denominação em alusão a Pentecostes, uma comemoração cristã que acontece 50 dias depois da Páscoa. O pastor Carlos Jair de Vargas Kaiper, da Igreja Assembleia de Deus de Vera Cruz conta que na ocasião celebra-se a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, que teriam começado a falar em línguas desconhecidas. Nesse templo, o batismo é realizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. “A imersão em água é simbólica, porque o verdadeiro batismo acontece no nosso coração, quando aceitamos Cristo”, esclarece Kaiper.
Os pentecostais acreditam que Deus está presente nos cultos de adoração, por isso, entendem que podem acontecer manifestações sobrenaturais, como curas milagrosas e orações em línguas estranhas. Basta assistir algum dos cultos para perceber que a emoção marca as celebrações. O pastor e os crentes se comovem e lágrimas escorrem pelos seus rostos. Nos cultos da Assembleia de Deus de Vera Cruz são cantados hinos de louvor ao som de uma banda gospel que toca ao vivo, são feitas orações e leituras de passagens bíblicas, sermões e há também apresentações do coral misto formado por membros da Igreja. Nesses momentos as pessoas são chamadas para comparecer diante do altar e sentir a presença do Espírito Santo.
Os visitantes são apresentados diante da comunidade e acolhidos com carinho. Uma música de boas vindas é cantada enquanto fiéis e lideranças os cumprimentam e abraçam. Esse gesto ocorre também entre os crentes. Em cultos de Reunião Geral, depois das boas vindas, um evangelista dá o demonstrativo do movimento financeiro mensal e os fiéis que o aprovam podem se manifestar. O coordenador do conselho fiscal também apresenta seu parecer.
As celebrações são conduzidas pelo pastor, o qual os pentecostais acreditam que deve ter recebido um chamado de Deus para atuar na igreja. Mulheres não podem ser pastoras. O pastor Carlos Jair de Vargas Kaiper explica que alguns ministérios são específicos dos homens, mas que as mulheres podem pastorear, ou seja, cuidar e levar palavras de conforto. Há também a contribuição de obreiros, homens designados a essa função por possuírem vocação e darem bom testemunho a sua família e a comunidade. Estes leem trechos da Bíblia e auxiliam na Santa Ceia. Além disso, existe um secretário da Assembleia de Deus que ajuda na cerimônia.
Os membros da Igreja contribuem com o dízimo, ou seja, 10% de seus salários. Na Assembleia de Deus crê-se que é preciso dar para receber, por isso as pessoas contribuem também com ofertas solicitadas. No culto do dia 12 de maio de 2018 esteve presente Erinaldo Bernardo, um pastor cearense que pediu ajuda financeira para a construção de um novo templo evangélico. Depois da coleta, foi feita uma oração de agradecimento na qual ainda pediam bênçãos para os contribuintes.
Quando um crente falece é realizado um culto fúnebre, no qual se presta solidariedade à família que perdeu um ente querido. Os pentecostais acreditam na Ressurreição: depois de chegar ao céu e encontrarem-se com Deus as pessoas retornam para a Terra com corpos renovados e sem enfermidades. Da mesma forma, esperam a volta de Jesus a este mundo.
A “família” que nasceu em Santa Cruz do Sul
Fabrício Silveira da Silva começou a se envolver mais nas atividades da Igreja ajudando o pastor Jorge Roberto, no ministério Nova Jerusalém, em Santa Cruz do Sul. Quando o reverendo se mudou para Porto Alegre, o ajudante ganhou autonomia para exercer seu trabalho, ajudando as pessoas e dando seguimento às atividades da Igreja. Por gostar muito de interagir com jovens, articulou uma banda gospel e criou diversos projetos, como cursos gratuitos de inglês e dicas para formular currículos.
Depois de nove anos, o pastor Jorge Roberto retornou e não gostou do que viu. Disse que o trabalho que estava sendo realizado não condizia com a identidade da Nova Jerusalém. Era preciso adequar as práticas religiosas ou então fundar um novo ministério. Devido ao número de pessoas envolvidas nos projetos, Fabrício não tinha como voltar atrás. E assim surgiu a igreja Família da Fé, fundada pelo, agora, bispo Fabrício. Desde então já se passaram dois anos.
Ele esclarece que é chamado de bispo ao invés de pastor por cuidar de todos os ministérios – no caso as igrejas da Família da Fé – que se localizam no Rio Grande do Sul e aproveita para deixar um recado: “Somos todos irmãos, só estamos em funções diferentes”, diz. Na Família da Fé o pastor e o bispo são escolhidos pelo caráter, pela capacidade de administrar e de assumir uma responsabilidade maior, e não pelo grau de estudo.
A Família da Fé segue os princípios bíblicos e prioriza a família, a harmonia e o amor. Silva explica que se deseja que as pessoas estejam bem não só espiritualmente, mas também com elas mesmas e com suas famílias. Além disso, a Igreja recebe jovens que desistiram dos estudos, assim como pessoas que se envolveram com drogas. De acordo com o bispo, este ministério possui cerca de trinta famílias recuperadas do crack.
Silva conta que o batismo é realizado por imersão nas águas de algum rio. As reuniões da Família da Fé são direcionadas: há os cultos motivacionais, em que se prega a fé a fim de dar forças para lutar, os cultos de louvor, nos quais adoram a Deus e os de libertação, que são voltados para pessoas que possuem vícios e perturbações.
Os membros da Família da Fé creem no milagre da restauração, que consiste em uma mudança positiva que ocorre por meio da fé. Silva esclarece que ao chegar na igreja a pessoa ouve a palavra de Deus e assim passa a alimentar a sua fé. Os crentes acreditam que é nesse momento que o milagre começa a acontecer. “Quem faz o milagre não é o homem, é Deus!”, enfatiza o bispo.
Para ser membro dessa Igreja, de acordo com Silva, quando o indivíduo já professa a mesma fé ele é recebido e apresentado à comunidade. Se não existe a crença nos mesmos princípios deve-se primeiro entender a palavra de Deus, conhecer a igreja e ser batizado. Na ocasião em que um membro falece, presta-se solidariedade para a família e é feita uma homenagem durante o velório e sepultamento. Além disso, os evangélicos neopentecostais creem na vida eterna.
A Família da Fé se mantém financeiramente com dízimos e ofertas voluntárias. Atualmente existem cinco igrejas no Rio Grande do Sul, além de grupos de oração que posteriormente se tornarão templos religiosos. O neopentecostalismo é a vertente pentecostal que mais cresceu nas últimas décadas. É o que afirma o sociólogo Ricardo Mariano, em seu livro “Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil”. Ele cita uma pesquisa de 1994 do Instituto Datafolha, que revelou um crescimento de 111,7% no número desse tipo de evangélicos.
De acordo com o professor de História Roberto Radünz, o aumento no número de igrejas neopentecostais não provoca a perda de identidade no protestantismo. “A identidade é um fenômeno em movimento e nesse sentido o protestantismo atual é resultado de transformações que aconteceram nos últimos tempos”, esclarece.
“Deus está com todos nós, o importante é carregá-lo conosco”
Nem todos os evangélicos frequentam a igreja regularmente, mas isso não significa ausência de fé. O mesmo vale para os familiares de lideranças religiosas que não participam de todas as celebrações. Esse é o caso de Dalvan Batista da Luz, natural de São Luiz Gonzaga. Ele, que foi batizado aos 14 anos na Igreja do Evangelho Quadrangular, é filho de um casal de pastores.
A frequência em que Dalvan comparece aos cultos diminuiu quando ele se mudou para Santa Cruz do Sul, a fim de cursar Jornalismo na Unisc. O tempo é reduzido devido aos estudos e ao trabalho, mas todas as vezes que ele visita a família vai à igreja. “Deus está com todos nós, o importante é carregá-lo conosco. Isso não me faz ser menos cristão do que quem vai à igreja todos os dias”, declara Dalvan.
O estudante acredita que a religiosidade faz parte do homem e defende que a igreja são as pessoas e não o templo que reúne os crentes que professam a mesma fé. Dalvan relata que, no dia a dia, busca ajudar o próximo com conselhos, para fazer com que as pessoas acreditem mais no seu potencial e em Deus. “Anuncio as boas novas do Evangelho, mas nunca tento converter ninguém para alguma instituição ou religião”, esclarece.
Dalvan e seus irmãos foram criados em um lar democrático. “Quando eu tinha 4 anos, meus pais se converteram. Sempre enfatizaram que estavam nos ensinando o caminho que achavam correto e justo, quando crescêssemos poderíamos escolher o que seguir” conta ele. O acadêmico aponta o fato de os pais nunca terem lhe obrigado a ser evangélico como o fator determinante para que ele visse a religião como algo positivo. “Não prego uma religião de forma fanática, mas creio que com fé em Deus conseguimos fazer as coisas mais impossíveis”, diz.

Retrato de Lutero, em 1529, feito por Lucas Cranach
Imagem: Divulgação/InfoEscola

Obreiros auxiliam nos momentos de adoração | Foto: Kelly Tainá Lemos
